#Entrevista | Jim Anotsu


O autor de Annabel e Sarah, que reconhecidamente entrou no mercado editorial com o pé direito agora trabalha em seu próximo romance e nos cede uma entrevista bem animada.

 

Agradecemos a liberdade que você nos dá para esta entrevista e aproveitamos para saber: Quem ou o quê é o misterioso Jim Anotsu? 

Eu sou o cara qualquer que quando anda pela rua vai tropeçando nos seus próprios pés. Minhas roupas não combinam e como canta Cuomo: meus jeans precisam de remendo. Ando com os punhos fundos nos bolsos e tenho mania de colecionar coisas absurdamente inúteis. Sabe, um Alvin de pelúcia fica muito cool na prateleira. Sou viciado em mms verdes. Saio pra caminhar sem rumo para ter idéias e quando elas aparecem é como uma flecha através da cabeça até o cérebro.  Eu nem faço muita coisa além de estudar, escrever e visitar lojas de discos usados pra comprar CDs pra minha coleção. Tenho problemas com as normas fundamentais de interação humana e fico alternando meus sonhos de consumo entre um tapetinho num lugar vazio e alguma outra coisa. Nos fins de semana eu me encontro com meus amigos num posto de gasolina e fico conversando sobre coisas que vão desde Sartre até O Guia do Mochileiro das Galáxias e/ou minhas imitações de Marlon Brando.

 

ANNABEL & SARAH
O Primeiro livro do autor, mas que de primeiro não tem nada.
A Narrativa é tão bem-feita que já pode (deve) ser comparada à um Clássico!

Qual influência da literatura beat em seu modo de escrever?

Foi bem grande. E acho que é uma das chaves pra se entender Annabel & Sarah. Mas não as técnicas de escrita. Não sou louco para tentar emular a prosa-espontânea de Kerouac ou o Cut-up de Bill Burroughs. Mas a maior influência veio do espírito beat (beatnik é ofensivo): A liberdade de fazer o que quiser e buscar alguma coisa que realmente te faça sentir bem. E quando eu comecei a escrever o livro, estava sob influência direta de Kerouac, Ferlinghetti, Corso, Ginsberg e principalmente Neal Cassady que era a alma central de tudo. Aquele que representava o vagabundo iluminado e acabou por ser tornar o Code Pomeray de “Visions of Cody”. Eu não sou mais tão vidrado nessa galera hoje em dia e duvido que no meu próximo trabalho existam muitas referências a isso. Mas foi uma época legal da minha vida.

Você concorda com alguns críticos que afirmam que o livro é a resposta do autor para todos os livros já lidos por ele?

Se não fosse por Robert Louis Stevenson, aos meus quinze anos, eu nunca teria começado a escrever. De certa forma era uma resposta ao trabalho dele.  Escrever é estar na influência, um caso de apropriação e desapropriação de todas as coisas que você leu e a remontagem de tudo aquilo numa visão particular. Gabriel Garcia Marquez decidiu ser escritor em resposta a uma leitura de Kafka. E mesmo um autor que diga estar buscando aquilo que não encontrou em outros livros, está de certa forma reagindo a eles.

 

Como foi escrever Annabel e Sarah?

Eu me lembro de que foi demorada na primeira versão. E dolorosa na segunda, que tinha quase 300 e poucas páginas. Eu tinha um emprego naquela época e eu não era muito feliz lá, o chefe reclamava se a gente não sorria e um monte de outras besteiras. Eu estava no limite entre desistir de escrever, tentar deixar de ser um aluno medíocre e seguir aquilo que eu conhecia desde criança como “O Plano” – estudar, entrar numa boa faculdade, ter uma namorada séria e fazer tudo isso sem maiores incidentes. Eu estava simplesmente cansado de estudar, ter um emprego bem remunerado e queria que tudo explodisse no melhor estilo Trainspotting. Foi aí que eu me demiti e aluguei uma casa onde passei dias escrevendo obsessivamente num quarto fechado com janelas cobertas de papel alumínio. O que era uma loucura levando em consideração que tinha 18/19 anos naquela época. A terceira versão saiu desse período e é essa que vocês podem ler.

IDENTIDADE SECRETA?
Até hoje, ninguém nunca viu Jim Anotsu, cogitam de ele ser um pseudônimo… ou um autor extremamente envergonhado… e agora?
Qual seu palpite?

Porque Fantasia?

Porque eu não tive escolha. A autora de Crepúsculo disse não ter escolhido escrever sobre vampiros, simplesmente aconteceu. A história veio e era assim que eu deveria escrever. Eu não acho que seja possível acordar e decidir algo assim. Você simplesmente deixa a narrativa te guiar. Algumas pessoas se sentem mais a vontade em escrever dramas intimistas e outras adoram cavaleiros em cruzada contra o mal. O importante é se divertir no processo. Ah, e eu sempre quis escrever sobre marsupiais tocando rock.

Como você enxerga o mercado de Literatura Especulativa atual, tanto no exterior como no Brasil?

Tenho gostado até certo ponto. Mas ainda dá pra melhorar muita coisa. Mas o que mais aprecio é que posso ver novos autores ganhando espaço e tentando sair do que já foi explorado. Isso é interessante. E acho muito legal conhecer algumas dessas pessoas. Continuar torcendo. E no exterior a coisa tem uma proporção maior, porque em lugares como E.U.A e  Inglaterra, você já tem um mercado enorme. Em Seattle você tem um museu de sci-fi e pra cada Starbuck você encontra uma livraria com seções disso.

Seus dez livros preferidos em ordem de preferência:

1- A Ilha do Tesouro – Robert Louis Stevenson

2- O Processo – Franz Kafka

3- Visions of Cody – Jack Kerouac

4- Reparação – Ian McEwan

5- Disco Biscuits – Contos – literatura underground irlandeses da década de 90

6-  Crônica da casa assassinada – Lúcio Cardoso

7- As Virgens Suicidas – Jeffrey Eugenides

8 – The Borrible Trilogy – Michael de Larrabeiti

9 – Alice no Espelho – Laura Bergallo

10 – Dois Irmãos – Milton Hatoum

 

Como é sair de um período onde ninguém te conhecia e ir para um segundo momento onde você tem sua obra dissecada pelos mais variados tipos de leitores?

Tão divertido quanto surfar no mar vermelho… E olha que já fiz isso.  Ah, cara, é uma coisa surreal multiplicada aos quadrados e cubos.  É incrível receber todas essas respostas positivas das pessoas mais diferentes possíveis. Já recebi respostas de garotas de 12 anos que amaram, rapazes mais velhos que eu e até mesmo de um dos meus professores de faculdade. Acho que a melhor resposta que tive, foi a cartinha de uma garota de 11 anos me perguntando o que aconteceu com uma personagem depois do fim da narrativa. Ela contava que tinha uma doença bem ruim e que ela queria ser corajosa e esperta como a Annabel. Realmente, foi um dos momentos em que realmente me senti contente por ter escrito o livro.

Fale sobre seu último livro, A morte é legal:

“A Morte é Legal” é quase uma dramédia romântica com elementos de várias outras coisas, você tem uma busca por coisas perdidas, uma dupla de amigos que tenta alcançar seus sonhos – mesmo que isso envolva o maior produtor de hip hop do mundo; amantes desafortunados e pactos com criaturas sombrias e um pouco de literatura policial. Acho que também é a história mais calcada em literatura que já fiz, sendo que é baseada num poema de T.S Eliot e com muitas referências à outros escritores: Wallace Stevens, Sir Philip Sidney e Shakespeare. “Annabel & Sarah” era uma coisa mais juvenil, o meu eu daquela época brincando de misturar coisas. O livro novo tem um pouco disso, mas tem coisas daquilo que eu acabei me tornando um pouco depois e das leituras que fiz depois. Foi a coisa mais difícil que já escrevi e também a mais honesta. Eu sempre pensei na “síndrome do segundo disco” pelas quais algumas bandas passam e por isso eu pensei em como eu queria que o meu “disco novo” seguisse o mesmo espírito de coisas como “Pinkerton” do Weezer ou “Marshall Mathers LP” do Eminem – trabalhos nos quais os artistas deixaram as piadas um pouco de lado em prol de uma faceta mais agressiva e crua. Bem, eu fiz isso, mas mantive minhas piadas e bichos falantes.

E, se você se interessou pelo autor e seu livro, Annabel e Sarah, pode (e deve) conferir a resenha dele que já foi feita aqui no blog! AQUI

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Um comentário sobre “#Entrevista | Jim Anotsu

  1. Pingback: #VemAí | A Morte é Legal | яK BooK's

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