#ContaConto | “RECOMEÇAR”

N.d.A.: inspirado na música “We Cry”, da banda The Script;

17/10/2012 (QUARTA-FEIRA) – 22h14min – Zona Norte de São Paulo

Jennifer está sentada na cama, cabeça baixa olhando para alguns papéis que segura desde as nove e quarenta, quando chegou do trabalho. A tinta da impressão está borrada em alguns pontos onde lágrimas caíram, formando círculos imprecisos no papel e ela luta para conter os soluços e não acordar sua filha de quatorze anos. Não era a primeira vez que a carta de cobrança bancária chegava e ela precisava ignorar rezando a cada noite para que sua situação financeira melhorasse.

A situação não estava fácil já desde que seu marido a deixara com as contas todas em seu nome. “Deveria ter ouvido minha mãe”, ela repetia sempre que pensava no assunto. O problema na verdade talvez viesse de muito mais longe. Acredito que sempre venha…

Desde cedo fora uma criança pobre vivendo num mundo de ricos, sempre desejando uma melhoria em sua vida. Aos dezesseis deu o nome de sua primeira filha de Esperança e prometeu que ela faria de tudo para que a vida dela fosse melhor que a sua própria. Bem, foi o que ela tentou. Jennifer casou-se com o pai da criança, um homem de vinte e dois com mentalidade de quinze que vivia se alcoolizando e saindo com outras, não trabalhava. O peso da responsabilidade caia sobre suas costas desde o casamento e mais ainda quando ele chegava alto e gritava com ela por terem mais uma vez cortado a luz. Contudo ela não se levantava contra ele.

Dedicava seu tempo à filha e seu bem estar, tentava educar e dá-la uma melhor condição, mas o fruto nunca cai muito longe do pé. Aos quatorze Esperança chega em casa chorando e segurando o teste de gravidez com resultado positivo e a notícia de que a criança não teria pai. Foi aí que a “família” ruiu por completo. Jennifer protegeu a filha apesar de brava e seu marido comprou a briga contra as duas. Na mesma noite, ambas foram colocadas para fora de casa.

A mãe dela as acolheu muito embora a situação não estivesse fácil também e agora as contas e cartas de cobrança de empréstimos chegavam a cada quinze dias lá. Por isso chorava. A vida é dura e impiedosa e ela não sabia mais o que fazer.

17/10/2012 (QUARTA-FEIRA) – 22h14min – Zona Sul de São Paulo

Maria anda de um lado para o outro em sua sala. O cômodo amplo e bem mobiliado refletia suas escolhas de outrora. Assim como Jennifer, lágrimas escorriam por seus olhos em direção ao queixo e ela as empurrava com o polegar, tentando evitar que seu orgulho fosse ferido. “Nunca desista dos seus sonhos”, aprendera com sua mãe, entretanto as coisas nunca estavam simples.

Tudo começou aos dez, quando presenciou uma briga dos pais em que a mãe foi ameaçada de morte e precisou ouvir o quanto o mundo era dos homens. Ali mesmo decidiu que entraria para o mundo da política e seria aquela a mudar o mundo. Iria lutar pelos direitos femininos neste “mundo dos homens” e seria uma pessoa correta. Casou-se com um empresário aos vinte e três anos após completar sua faculdade e começou sua campanha.

A questão é que não conseguiu ser bem-sucedida e assistiu seu sonho de mais de dez anos ir pelo ralo enquanto ela lutava com unhas e dentes para mantê-lo em pé. Seu marido sempre apoiou a carreira política e entendia seu lado, contudo nos últimos dezesseis anos de fracasso passou a pressioná-la para arranjar uma ocupação também. Maria se recusava a ouvir e isso era o que a levava às lágrimas naquele dia.

Nunca é fácil abrir mão de algo que se vem lutando por anos, mesmo que tudo lhe indique que é o certo. “Nunca desista dos seus sonhos”, aprendera com sua mãe, uma mulher que nunca sequer sonhara grande como ela. Talvez aquela fosse a hora certa. A hora certa para engolir o orgulho que escorria pelos olhos e lidar com a vida de pés no chão.

17/10/2012 (QUARTA-FEIRA) – 22h26min

Jennifer na cama emprestada por sua mãe se põe em pé e engole o choro. Passara a vida inteira agindo como submissa e já estava cansada de ser jogada ao chão pelo mundo, esperando que dias melhores viessem onde tudo desse certo. Decidiu que era a hora de recomeçar, de colocar um objetivo um pouco maior em sua existência. Algumas pessoas dizem para vivermos um dia de cada vez, mas às vezes quando se está estilhaçado isso ainda é muito e precisamos viver momento a momento. A parte boa em se estar no fundo do poço é que não há outro lugar para ir a não ser para cima; e é isso que ela fará.

Do outro lado da cidade, Maria também engole o choro, mas com uma tristeza no coração. Sua vida lhe dera muitas coisas e junto com elas a decepção grande de ver que não será ela a mudar o mundo. Era a hora certa de recomeçar, com certeza. Talvez não seja como ela espera, talvez não seja seu sonho, mas também talvez seja o certo.

Recomeçar. Jennifer e Maria. Em algum momento todo pássaro aprende a voar. Em algum momento toda rosa terá de morrer. É a vida. Recomeçar é sempre bom quando não sabemos para onde ir.

Afinal, quem sabe o que o incerto nos reserva?

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