Conto | Floresta Azul

Floresta Azul

Nayron. Por mais que eu tente, não consigo parar de pensar no nome dele. O pior de tudo é saber que eu o traí. E traí da forma mais horrível que existe. Estou muito arrependida. Mas sei que o arrependimento não fará com que tudo volte ao normal, é preciso agir.

            Ainda me lembro o dia em que fomos salvos por Nayron. O dia em que fomos parar no meio da Floresta Azul. Azul porque havia sido outra vítima da Mutação.
            Lembro-me do momento em que ele nos abraçou, e então se teletransportou para o meio da floresta. Mesmo sem saber se não estávamos fugindo de um inimigo para encontrar outro.
            Porém naquela floresta, por um bom tempo, só houve amigos. As árvores azuis. Os Exilados. Os animais.
            A Mutação alterou a vida de todos os seres vivos da Terra. Seres que antes não tinham capacidade nenhuma de pensar, hoje são tratados como verdadeiros reis e rainhas. Lizzel era um desses reis. Mas ele era bom, era também uma árvore. Após serem atingidas pela Mutação, as árvores criaram uma inteligência superior, ou melhor, absorveram uma inteligência e a tornaram superior.
            Quando A Mutação começou, todos as pessoas idosas da terra desapareceram misteriosamente, até hoje ninguém sabe onde elas foram parar, mas eu sei. Todos os idosos foram absorvidos pelas árvores. É eu sei, isso parece super infantil, mas é a verdade.
            É por esse motivo que hoje a floresta é o maior centro de lembranças do mundo, coisas que aconteceram muito antes da Mutação ainda são lembradas por nossos velhos-árvores.
            Eu e Nayron aprendemos muito com elas, e foi através da sabedoria antiga das árvores que Nayron descobriu o elixir da transformação.
            Na floresta moravam também os Exilados, um grupo de pessoas que havia fugido da cidade e se refugiara na floresta, esse grupo era formado por Imunes e Mutantes, constatei também que entre eles não havia um único Imuno-Ativo. Mas em compensação haviam dois dominadores, um incinerador e um transmutador, esse último me deixou muito surpresa já que eles são a espécie mais rara de todas, o que é um privilégio, já que não é todo mundo que pode sair por aí se transformando no que quiser.
            Com o passar do tempo, acabei ficando amiga de Marta, uma imune, que por sinal era muito legal. Saíamos todos os dias para colher frutas nas árvores e bater um papo mental com elas. Uma das coisas que ainda não disse é isso, as árvores não falam, elas conversam umas com as outras mentalmente.
            Vivemos em paz por muito tempo, isso até que acordei uma noite om um pesadelo horrível, nele eu via fogo, muito fogo. E, no meio desse monte de fogo, eu, Nayron, Milena, Guilherme e Wellington, morríamos. O maior problema foi que eu vi quem foram os causadores do incêndio. E eles me pediam o elixir.

            Nayron havia dito a algum tempo que havia terminado o elixir da transformação, mas se fosse simples assim eu teria apenas pegado um dos vidrinho e levado para os Dominadores. Mas o problema é que não era assim tão simples. Deviam existir uns cinquenta tipos de elixir, e eu precisava saber qual era o certo.
            Assim que havia acabado de fazer o elixir, Nayron havia me oferecido, disse que se eu tomasse eu poderia me tornar uma imuno-ativa. Na época eu havia negado, mas agora eu tinha um motivo para aceitar.
            Fui atrás de Nayron e o encontrei na floresta, conversando com Lizzel pedi que ele me desse o elixir, e é claro que ele aceitou. Não relutou nem um pouco, não tinha do que desconfiar.
            Ele me deu o elixir amarelo, ele disse que era o que tornava a pessoa em uma imuno-ativa. Então eu bebi e, para minha surpresa, nada aconteceu. Foi então que Nayron me disse para não me preocupar que o elixir demoraria de três dias a duas semanas para fazer efeito de verdade. Mas não importava. Eu já havia conseguido o que queria.
            Quando saímos do laboratório improvisado de Nayron, eu vi que havia alguns velhinho andando pela clareira. Perguntei a ele como eles haviam ido parar lá, e ele apenas me respondeu: “É o elixir fazendo efeito”.

            Meia-Noite. Porque será que esse horário é sempre o símbolo de grandes decisões? Porque uma fuga tem que ser realizada sempre à Meia-Noite? Poderia muito bem ser às duas ou às três da manhã. Mas não importa, foi esse horário que escolhi para roubar o elixir e tetar salvar a floresta.
            E eu consegui, como estávamos entre amigos, Nayron nunca havia trancado a porta de seu laboratório improvisado. Foi muito fácil entrar lá  pegar o elixir. Fácil demais.
            Então, eu fiz a coisa mais horrível do mundo, traí aqueles que eram meus verdadeiros amigos. Entreguei o elixir para Gathron, o líder dos dominadores. Mas eu pago muito caro por isso. Estou aqui, em uma cela, presa. Esperando o momento da execução.

            Acordo, e vejo pelas grades da cela que já é de manhã, por algum motivo não me sinto bem, estou com uma dor de cabeça terrível. Ouço alguém me chamar e me viro, vejo Gathron na porta da cela, e ele diz:
            “Olá Samantha, quanto tempo não? Sei lá, umas doze, treze horas? Como foi a noite? Dormiu bem, nesse chão macio?”
            Respondo apenas com um grunhido.
            “A hora da sua execução chegou, pensou que eu ia deixar você viva não é? Pensou que eu ia deixar seus amigos vivos também?”
            “Não! Eles não! Era a minha vida e o elixir em troca da vida de toda a floresta!”
            “Coitadinha, foi tão burra. Achou mesmo que eu deixaria eles vivos? Eles não passam de desertores.”
            “Não… Você não pode…” Realmente não me sinto bem, a cela está girando…
            “Posso sim, e você sabe não sabe? Em breve serei um imuno-ativo, viverei para sempre, dominarei tudo e todos!”
            “Não…” Consigo dizer, antes de tudo ficar escuro.     

            Acordo novamente, vejo que estou num tipo de gaiola, vejo também que estou perto da floresta azul. Há centenas de incineradores perto de mim, sei que eles estão apenas esperando a ordem para atear fogo na floresta.
            A floresta na qual aprendi tanto, a floresta que foi minha casa. A floresta do bem.
            Uma das alterações que o X26NX, ou Klizeliwov, fez nas árvores foi que ela não conseguem disfarçar se são pacíficas ou não, se elas são pacíficas suas folhas são azuladas, muito ou pouco, isso depende da espécie e da intensidade do sentimento. Mas se a árvore está irada, ela tem as folhas avermelhadas, ou muito vermelhas, isso também depende da espécie e do nível de nervosismo, quanto mais irada, mais vermelha.
            Neste momento as árvores estão se preparando para a guerra. A floresta azul não é mais azul, agora ela está vermelha.
            Gathron aparece de novo, desta vez está com aquele sorrisinho irônico e idiota estampado no rosto.
            “Olá bela adormecida. Como foi o sono?”
            “Não te interessa.” Percebo agora que não estou mais com dor de cabeça.
            “Bom, saiba que eu tenho uma missãozinha pra você.”
            E aí que eu percebo que ele está com um pedaço de pau na mão esquerda, e na ponta dele está enrolado um pano, e pelo cheiro nauseante que vem até mim, sei que é gasolina.
            “Que tal você começar nosso pequeno incêndio ein?”
            “Nunca!”
            “Você não tem escolha”
            E aí que sinto algo irritar minha mente,
            vamos lá, você não tem escolha, 
            algo irritante, posso te controlar, algo muito irritante,
            sou um dominador lembra?…
            e isso está me deixando muito irritada,
            eu mando em você, e você irá…
            isso vai parar,
            atear a primeira tocha, o primeiro foco do maior incêndio que essas árvores imbecis…
            para!
            Já viram em toda a vida centenária delas…
            para!
            Seu namoradinho vai morrer,
            não!
            Seus amigos,
            não!
            Suas árvores…
            (vejo quando ele estende a tocha e um dos incineradores ateia fogo nela)
            sua pequena tribo de desertores…
            NUNCA!

             Gathron faz uma careta horrível, como se estivesse sofrendo muito, logo esta máscara se transforma no mais puro e simples medo, ele é tomado pelo terror. Agora estou me sentindo forte. O elixir pelo jeito realmente funciona.
            “Já era para você estar dominada! Era para me obedecer! Onde estão meus poderes? O que aconteceu?”
            “E agora? Quem é a burra?”
            “Para com isso! Minha cabeça está doendo! Para!”
            “O que você acha de um suco de cérebro ein?
            “Não! Não! Prometo que vou te soltar! Para com isso!”        
            Vejo quando um líquido amarelado começa a escorrer pelo nariz de Gathron, continuo a investir contra sua mente, como um psicopata esfaqueando sua vítima.
            “Para! Par…” As palavras morrem na boca de Gathron, ele morre.
            Viro-me para os incineradores, vejo quando um deles se prepara para me atacar, mas logo para, quando ele é puxado para dentro da terra por uma raiz que se enrola em suas pernas. Vejo fogo explodir do buraco.
            Logo centenas de animais começam a sair de dentro da floresta. Eu havia me esquecido de dizer que também haviam animais do nosso lado.
            “Olá Samy…” Ouço uma voz atrás de mim dizer, é uma voz conhecida, a voz do amor da minha vida. Nayron.
            Ele pega uma chave e destranca o cadeado, me deixando livre daquela cela.
            Não consigo fazer nada além de abraçá-lo com toda a fora que eu tenho.
            “Me perdoa Ny, me perdoa…”
            “Agora não é hora… Vamos nos divertir”
            A batalha havia começado. A primeira de muitas.
            “Divertir? Bom, já que insiste, vamos lá!”

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